O asfalto da orla de Santos reverberava a quarenta graus quando a prefeitura emitiu o decreto que selou nossa desgraça compartilhada: a vaga nobre em frente ao Gonzaga seria dividida. Quinze metros quadrados para acomodar a fumaça rústica da minha grelha de carne defumada e a precisão asséptica dos ceviches cítricos de Cecília.
Durante anos, nossa rivalidade foi alimentada por olhares enviesados através de praças de alimentação e postagens irônicas nas redes sociais. Ela considerava meu cardápio um ataque cardiovascular primitivo; eu tratava a culinária dela como afetação para estômagos fracos. Agora, os espelhos retrovisores dos nossos caminhões quase se tocavam, refletindo a hostilidade mútua que inaugurou dezembro.
— Se o seu carvão manchar a minha pintura fosca, Matteo, chamo a vigilância sanitária — ela avisou no primeiro dia, amarrando o avental de linho com a firmeza de quem ajusta uma armadura.
— Se o cheiro de coentro afastar minha clientela, Cecília, eu mesmo empurro esse seu aquário sobre rodas até a maré cheia — respondi, batendo o cutelo na tábua de mogno.
O calor, no entanto, é um agente corruptor da animosidade. À medida que janeiro avançava, as filas de turistas se misturavam na calçada estreita. A proximidade forçada nos obrigou a uma coreografia inevitável. Nossos geradores rugiam no mesmo tom grave sob o zumbido das cigarras. Quando uma tempestade de verão arrancou o toldo do meu caminhão, foram os dedos ágeis de Cecília que me ajudaram a resgatar os cabos elétricos encharcados. Quando o compressor do refrigerador dela cedeu ao meio-dia, guardei seu peixe branco no meu gelo sem cobrar pedágio moral.
A animosidade cedeu lugar a uma observação silenciosa e voraz. Eu a via trabalhar sob a luz tênue do crepúsculo, o suor colando mechas castanhas à têmpora enquanto equilibrava a acidez do limão e o ardor da pimenta-de-cheiro. Havia nela um rigor estético que, admiti a contragosto, beirava a perfeição. Ela, por sua vez, parou de torcer o nariz quando a lenha de laranjeira começava a queimar, observando o controle quase cirúrgico que eu mantinha sobre o fogo bruto.
Em fevereiro, o cansaço acumulado de noventa dias ininterruptos de trabalho pesava em nossos ombros. Numa noite de domingo, após o esvaziamento da orla, Cecília sentou-se no meio-fio, os pés descalços tocando a areia ainda morna. A brisa salgada trazia o marulho distante e o cheiro de maresia misturado a açúcar tostado.
Aproximei-me com uma cerveja artesanal e um prato de brisket caramelizado; ela respondeu deslizando uma tigela pequena com lâminas finas de robalo marinadas em maracujá.
— Um armistício temporário? — perguntei, sentando-me a uma distância prudente, embora o espaço entre nós parecesse pulsar com uma eletricidade inédita.
— Uma trégua gastronômica — ela respondeu, os olhos cor de avelã sustentando os meus com uma franqueza desarmante. — Só até a cerveja esquentar.
Experimentamos a comida um do outro em silêncio. Foi uma rendição mútua. O contraste entre a gordura macia da carne e a acidez cortante do peixe revelou o que nenhum dos dois tivera coragem de formular: éramos, de maneira implacável, o contraponto exato um do outro.
Cecília sorriu, a primeira curva suave que vi em seus lábios sem a presença do sarcasmo habitual. Quando ela estendeu a mão para limpar um vestígio de cinza na minha bochecha, seus dedos hesitaram contra a minha pele, quentes e ásperos pelo ofício da faca. Não recuei. Inclinei-me em direção ao toque, reduzindo a zero o espaço que nos separava há tanto tempo. O beijo teve gosto de flor de sal, fumaça e a urgência contida de um verão inteiro.
A temporada terminou na terça-feira gorda, mas nenhum de nós acionou a ignição para partir. A vaga agora parecia pequena demais não pela disputa, mas porque nossos planos, a partir daquele outono, passavam a ocupar o mesmo espaço.